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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Atriz trans Renata Carvalho diz em entrevista que sofreu a maior violência de sua vida aqui em Garanhuns


Com informações do JC

Numa entrevista contundente ao site The Intercept, a atriz trans Renata Carvalho diz que a repressão que sofreu em Garanhuns, durante o último Festival de Inverno, foi a maior pela qual já passou não apenas desde que estreou o espetáculo “Jesus, Rainha do Céu”, mas a mais grave de toda sua vida.

Antes do festival, o espetáculo foi cancelado da programação pela Fundarpe e pela Secretaria de Cultura de Pernambuco depois das pressões da Diocese de Garanhuns e do prefeito Izaías Regis, alegando que o fato de Jesus Cristo ser interpretado por uma atriz transexual atacaria a comunidade cristã local.

Depois de dizer que não cederia, em nome da liberdade artística, tema do festival, o secretário Marcelino Granja recuou. A decisão de suspender a peça contou com o respaldo do governador Paulo Câmara.

Depois de vários imbróglios jurídicos, a peça acabou reintegrada à grade do festival e foi cancelada, de última hora, quando a atriz atuava numa segunda sessão do espetáculo. Agentes de segurança antes escalados para protegê-la tentaram, subitamente, reprimir a atriz.

A entrevista foi compartilhada, no Facebook,  pela dramaturga Jo Clifford, premiada mundialmente, autora do texto que faz um exercício teórico sobre a possibilidade de Jesus voltar à terra nos dias de hoje no corpo de uma travesti. O compartilhamento gerou comentários em todo o mundo.

“Toda censura agride, como aconteceu em Salvador, em Jundiaí e até no Rio de Janeiro. Mas essa de Garanhuns foi sem dúvidas a mais violenta que nós já sofremos com a peça”, disse a atriz.

Veja os principais trechos da entrevista ao The Intercept:
“Começamos então a segunda sessão, e a organização do evento começou a tirar as coisas do palco enquanto eu me apresentava. Nós fomos para a chuva e as cerca de 400 pessoas ficaram lá assistindo com a gente, embaixo de chuva também. Foi lindo. Ainda assim, eles continuaram tirando as coisas do palco, fazendo barulho para tentarem me atrapalhar. Nesse momento, eu fui para o fundo do palco de novo e falei com eles: “Vocês querem que eu quebre tudo aqui de novo?”. Eles continuaram, e eu derrubei mais duas cadeiras. Nisso, o público chegou perto, e escoltou os seguranças contratados pelo festival para fora do lugar”.

Esse episódio todo foi de um desrespeito muito grande. Foi a transfobia institucionalizada. Claro, toda censura agride, como aconteceu em Salvador, em Jundiaí e até no Rio de Janeiro. Mas essa de Garanhuns foi sem dúvidas a mais violenta que nós já sofremos com a peça. Em todos os lugares que nos apresentamos, temos problema. Já precisamos fazer a peça com policiais nos vigiando dentro da sala de apresentação. Mas Garanhuns foi muito pior”.



Ela também reclamou do pouco apoio recebido pela classe artística:

“A Daniela Mercury e o Johnny Hooker foram pontuais no fortalecimento e nos seus discursos. Mas, sinceramente, eu acho que os artistas se calaram no Brasil. As pessoas acham que a censura é na Renata, mas não. A gente só dá precedente para [a exposição] “Queermuseu”; [a performance] “La Bête”; um quadro ser apreendido, em Goiás… Esses episódios só abrem mais jurisprudência para que a censura continue acontecendo”.

E também elogiou os apoios:

“Claro, grandes artistas – como Armando Babaioff, Felipe Catto e Caio Prado – têm se manifestado e demonstrado apoio, mas a grande maioria tem feito isso de forma anônima. Ainda falta apoio de quem tem o poder da fala e o entendimento como artista, que é o caso da Daniela e do Johnny. A maioria dos artistas não tem se pronunciado porque se trata de uma travesti. Queria ver se fosse com qualquer outro ator no Brasil, que sofresse consecutivamente o que eu estou sofrendo, se as pessoas não teriam se mobilizado. Se não teriam subido hashtags como “somos todos fulano de tal”, “estamos juntos”, “censura nunca mais”…”

“Mas eu estou em um lugar onde meu teatro e minha arte não são validados. As pessoas que validam o teatro não veem a arte trans”.

“O melhor de tudo é que estamos discutindo sobre travestilidade e transexualidade. A gente precisa disso. Quando eu fundei o Movimento Nacional de Artistas Trans, as pessoas me diziam que não existia artista transexual, muito menos que fosse bom. Esse argumento já foi por água abaixo, porque hoje podemos ver exemplos como [a norte-americana] Laverne Cox, a série “Pose” [com o maior elenco de artistas trans na história da TV], a Rogéria… Nós sempre estivemos na arte, mas o nosso corpo é desconfortável de ser visto ali”.

“O teatro é o lugar mais democrático que eu conheço no mundo, pena que os atores cisgêneros não sabem disso. Sou atriz há 22 anos e há 22 anos tentam me tirar do teatro. O preconceito está no que as pessoas imaginam ser uma travesti, na construção social do que é ser uma travesti. Eu poderia ganhar três Oscars seguidos que eu ainda seria uma travesti. Antes de fazer qualquer coisa, eu sou uma travesti. É isso que vai à minha frente, é isso que marca o meu corpo. Por isso que a representatividade trans é tão importante. Nós precisamos falar sobre cisgeneridade, porque esse não é um gênero superior. Nós somos todos iguais”.

Texto e informações: JC Online

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